Espinhas na Garganta, Silêncios na Alma

Espinhas na Garganta, Silêncios na Alma

Ariel, ainda muito nova, tinha o costume de ir com sua família ao pesque-pague. Criada pela família materna e sem a presença dos pais em sua vida, passava os domingos ao lado de tios, tias e primos de idade próxima.

Mesmo cercada de pessoas, a sensação de abandono e solidão era constante. Ela percebia, ao seu redor, não apenas a própria família, mas várias outras com uma configuração diferente da sua: pai, mãe e filho. Essa comparação silenciosa reforçava um vazio difícil de explicar.

As brincadeiras com os primos eram, muitas vezes, divertidas — cheias de natureza, animais e correria. Ainda assim, as brigas eram frequentes. Ariel não se recorda com clareza dos motivos, mas acredita que, por ser a prima mais velha, tentava exercer controle e domínio. Talvez fosse a única forma que conhecia, naquele momento, de sustentar sua autoestima. Havia também ciúmes e o medo constante de ser deixada de lado.

Por outro lado, brincadeiras mais agressivas, como “lutinhas”, a incomodavam profundamente. Nessas situações, sentia-se injustiçada, irritada e vulnerável.

Os almoços eram quase sempre à base de peixe — algo que ela adorava, apesar das espinhas. Comer, para Ariel, ainda não era uma experiência de prazer. Mesmo assim, a textura e o sabor do peixe a encantavam, levando-a a comer rápido e de forma ansiosa. Como consequência, os engasgos eram frequentes. Entre tentativas desesperadas de se desengasgar, surgia um medo intenso de morrer — e, com ele, a sensação de que o abandono se tornaria definitivo.

Quando brigava com os primos, tinha a impressão de que todos tinham alguém para defendê-los — menos ela. E, de certa forma, isso refletia sua realidade. Essas experiências a deixavam revoltada, triste e frequentemente chorosa.

Como se não bastasse, situações negativas eram comuns nesses encontros. Acidentes com linhas e anzóis aconteciam, muitas vezes envolvendo sangue, dor e a necessidade urgente de atendimento médico. Esses episódios contribuíam para a construção de um ambiente que, para Ariel, deixava de ser seguro.

Ela também se recorda de um aniversário passado ali. Após uma briga, a surpresa que estavam preparando foi revelada por sua cuidadora, que decidiu cancelá-la. Em meio a gritos e palavras duras, Ariel foi culpabilizada por “estragar” o próprio aniversário. A partir desse momento, consolidou-se uma crença profunda: “Meu aniversário não é um dia que deve ser comemorado”.

Com o tempo, aquilo que deveriam ser momentos felizes em família se transformou em marcas difíceis de apagar. Ariel desenvolveu uma forte restrição alimentar a peixes e frutos do mar, independentemente da forma de preparo. Pesque-pagues passaram a ser vistos como lugares hostis, despertando medo e rejeição. Seus aniversários, por sua vez, tornaram-se dias carregados de tristeza, antecedidos por semanas de angústia.

Já na vida adulta, ao conquistar seu próprio livre-arbítrio, Ariel decidiu buscar ajuda psicológica — inicialmente em segredo. Aos poucos, foi ressignificando suas experiências, elaborando suas dores e reconstruindo sua história.

E, assim, Ariel pôde finalmente se transformar.

Virou, então, a sua própria versão de sereia.

Observação: Este relato não corresponde à história de nenhum (a) paciente específico (a).

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